Publicado por: Erick Guerra | Outubro 17, 2008

III

Acordou com um ruído que viera da rua. Queria aproveitar cada minuto que podia em sua cama, afinal não era sempre que se dormia. Espreguiçou-se, sentindo cada vértebra se alongar. Sentira um fôlego que antes não possuía, sentira (também) algumas partes de corpo que se esquecera que existia e se levantou. Fora preparar um café que o tomara ainda quente, sentindo o calor adentrar seu corpo e sua língua queimar.

Ao olhar para o sofá e ver alguns embrulhos, se lembrara do dia anterior. Até pensaria sobre o porquê ele havia se esquecido dele mesmo ao ponto de não lembrar do próprio aniversário se não soubesse que não encontraria respostas. E isso era quase mais intrigante que a sensação que sentira ao se confrontar com sua identidade. Tomou outro gole de café para afogar as borboletas que haviam se criado em seu estômago pela lembrança de se reencontrar.

Sentou-se no sofá e começou a abrir os presentes. Não eram valiosos, mas todos pareciam terem sidos escolhidos com carinho e especialmente a ele. Desde o livro do autor que mais gostava, comprado em um sebo – que o fizera pensar em como aquele livro já havia passado por várias pessoas, e em como que para cada uma delas ele deveria ter tido um significado diferente – até uma caneca com uma careta engraçada inscrita nela, a mesma que ele costumava fazer quando era pego de surpresa por uma frase desconcertante.

Riu um pouco e reparou que algo piscava no meio de sua cama. Foi e viu que era seu celular, o pegou e ao ler a mensagem, que o convidava para sair, lembrou que o número era de um de seus amigos da faculdade. Um daqueles amigos que se podia contar para (quase) qualquer coisa, daqueles que são irmãos. Então ligou para ele, combinaram de saírem logo em seguida para colocar o papo em dia e aproveitar o dia de folga. Sabia que não descobriria motivos só porque queria conhecê-los, então como quem deixa a vida o guiar foi viver e talvez ser… Mas isso já não era tão importante. Na verdade não é nada importante, porque foi tentando ser que não fui. Deixe-me ir que se não eu me atraso.

Publicado por: Erick Guerra | Outubro 9, 2008

II

Após algumas dezenas de minutos rodando pela cidade, chegou ao seu destino diário. Estacionou seu carro naquela vaga, naquela que tinha seu nome, e ficara encarando aquela placa. Era estranho ver seu próprio nome escrito a vista de todos, ainda mais com o “Dr.” precedindo-o. Desceu de seu carro, pegou as fichas no porta-malas e caminhou em direção a entrada do hospital.

Ao entrar, como usualmente, comprimentou as recepcionistas e caminhou até o Arquivo Central, aonde deixaria aquelas fichas, peçados de vidas, no meio de tantas outras. No caminho notou que as pessoas sorriam para ele enquanto passava. Deixara sua ocupação da última noite no seu devido local e foi para seu local de trabalho, a Emergência.

Enquanto prosseguia, não percebeu que duas enfermeiras vinham em sua direção. Parabéns, Doutor. - disseram, estenderam a mão e seguiram seu caminho. Nesse dia esse fato fora recorrente. Diversas pessoas o parabenizavam, mas não diziam pelo que. Isso aumentou aquela sensação de que esquera algo. Deve ser por aquela cirurgia do último plantão. Só pode ser. E até poderia ser mesmo, fora um procedimento feito com uma destreza e perícia admiráveis. E se fosse, os elegios eram algo que não o agradavam. Estava comprindo com minha tarefa, com meu juramento, e ainda com o que me pagam, não fiz nada de extraordinário.

Seu dia de trabalho fora, sim, algo ordinário. O que sujara suas vestes foram pingos de molho que cairam em sua camisa no lanche rápido que fizera antes de encerrar o seu turno. Quase na hora que costumava sair, fora chamado ao vestiário. Não algo comum, na verdade nem um pouco comum, chamarem alguém ao vestiário, mas fora, sem se questionar muito. Quando entrou, as luzes se acenderam e quando conseguiu firmar seus olhos, viu que era uma festa, surpresa e para ele. Todo o seu dia fizera sentido. Desde o que esquecera até os parabéns. Não posso ter me esquecido do meu próprio aniversário. Sua primeira reação foi conferir em sua identidade, e ela confirmava. Sim, ele se esquecera.

Pasmo, participou da festa um tanto quanto incomodado. Recolheu alguns presentes e se dirigiu para casa, e naquela noite ele dormiu, dormiu como nunca antes tinha dormido. E antes de se deitar, reparou em uma mensagem de um número estranho no seu celular, mas não deu atenção. Na verdade, não conseguiu, ele dormira olhando para o celular com ele em sua mão.

Publicado por: Erick Guerra | Outubro 6, 2008

I

Pegou a velha xícara, encarou a pilha de papéis que trouxera do trabalho e antes terminar tudo aquilo, engoliu de uma vez o conteúdo, sentido o gosto amargo daquele café que já se encontrava frio. Sua noite seria de trabalho, e que bom que seria, já não aguentava mais encarar o teto na tentativa de dormir. Tinha aprendido não discutir com Hypnos a respeito de seu sono. E Afinal de contas, quem precisa realmente dormir?

Quando fechou a última pasta, o primeiro raio de sol alcançou seus olhos. Tomou uma ducha quente e demorada, antes de sair para o trabalho. E logo ao sair, ele sentiu que esquecera algo. Não deverá ser nada de importante, os documentos estão no porta-mala; bolsa; chave; guarda-chuva; tudo está aqui. Sim, guarda-chuva, mesmo em um dia de céu azul.

 Após dar a partida no carro prata com os bancos pretos, tão previsíveis quanto sua vida, iniciou o mesmo trajeto que já perdera a conta de quantas vezes o fizera. E ao tentar pensar sobre como seria o andamento de seu dia, foi vencido por aquela impressão de que esquera algo.

Publicado por: Erick Guerra | Setembro 30, 2008

Ode àqueles que se adaptam

A vocês que não sofrem, a vocês que não sentem dor, a vocês que não entristecem, dou o meu louvor. Só não me peçam para que eu seja igual a vocês, pois ainda sinto o sangue correr em minhas veias, e sinto que ainda há esperança. Pois acredito na Rosa do Povo, pois acredito no novo.

Publicado por: Erick Guerra | Setembro 30, 2008

“Na moda da nova Idade Média”

Deu à louca no Rei e uma nova lei, ele resolveu baixar. A partir de agora é proibido proibir, não reprimam nem o ar. Assim será, e aqueles que gostam do outrora, pagarão com vida, ou melhor, não pagarão, pois nem isso esses tem mais.

Publicado por: Erick Guerra | Setembro 30, 2008

Gênesis

Sem rodeios ou floreios, aqui escreverei, como preto no branco. Não mais para me expressar, muito menos para me perder, so here we go!

Publicado por: Erick Guerra | Junho 27, 2008

Para isso que são feitos os sonhos…


Sentado no terraço, sentindo cada gota de chuva cair no seu rosto, pensava no que se passava na sua vida. Entres flores recebidas e bombons de licor, ele se encontrava – perdido – chorando. Porque não conseguia acreditar naqueles sentimentos? Via corações como algo estéril. Algo mais como um minério, estático, a mercê das intempéries do tempo.
A chuva continuava a cair, quando reparou que era observado. Sentiu seu rosto corar, e de seu pulmão se esvair o ar, suas mãos travaram ao contrário de seu coração que (compulsivamente) batia. Ele sabia quem era. Poderia reconhecê-lo a quilômetros – não que isso o agradasse – mesmo com seus olhos vendados.
E, como quem não queria nada, viu o que “se passava” vindo em sua direção – de modo quase em slow motion – com aquele velho sorriso sarcástico, dizendo:

- Até quando você ficará por aqui? Mesmo a cidade ficando especialmente linda quando chove, não quero sua atenção dividida. Quero você só para mim.

Algo lhe dizia que tudo aquilo era bom demais para ser verdade. E por isso, decidiu num beijo entregar-se antes que aquele doce sonho acabasse.

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